Se vocês ainda levantam olhos à janela do carro, já devem ter observado quantas pessoas andam correndo por aí ultimamente. Seja logo cedo, pela manhã, seja no final do dia: lá estarão eles, respiração ofegante, suados, uns muito velozes, outros nem tanto... Mas todos, simplesmente todos os jeitos de gente estarão lá... Cada um no seu ritmo e tipo, não importa qual, estará lá correndo.
Se vocês moram em grandes cidades, já tiveram seus caminhos interrompidos por uma multidão colorida que escorre pelas avenidas num domingo de manhã.
São eles, os corredores de rua, em corridas de rua, última moda em Paris, Nova York, Berlim, Buenos Aires, São Paulo, Rio e onde for. Tem sempre gente correndo em multidões por aí. 
Até que um dia, um desses congestionamentos do trânsito te amarra por tempo mais que suficiente para que um desses seres passe correndo pelas portas do teu carro. Em ritmo firme e constante, alheio ao mundo parado ao redor, avançando convictamente pelas calçadas, ele se distancia. Parado, você questiona: o que este cidadão faz correndo aí fora? Ele não deveria estar em casa, não, hein? O que o move? Por que ele faz isso? 
O espelho retrovisor do carro te devolve o desdém: e você? O que te move? Por que você faz o que você faz?
E assim, tentando compreender as questões que nos afligem e nos imobilizam, que resolvi que iria correr. A última a ser chamada, ou aquela que sempre sobrava na escolha do time de queimada da escola, estava no parque, tênis firmemente amarrado, decidida a correr.
Arrumei professores para ajudar... Ah! Sim, o bom e abnegado professor de educação física ... mas isso já é outra estória. Alguns meses se passaram e vieram as primeiras corridas de rua. Dormir cedo na noite anterior para acordar cedo, deixar tudo pronto para vestir a camiseta do evento e sair rápido de casa. E eis que você se vê ao nascer do sol, ar fresco da manhã de domingo, no meio de uma multidão alegre e excitada, ao som de uma música energizante e de um locutor de final de copa do mundo. Soa a sirene e está dada a largada. “Boa prova, Galeraaaa! “ 
Está feito! Pronto! Você é a galera! No meu caso, pelotão geral, e eu me transformo no pelotão geral. Não sou ninguém, sou o pelotão geral. Sou uma corredora, só. Não importa o quanto você treine, não importa o quanto você tenha se dedicado, não importa a marca ou o amortecimento do seu tênis, não importa a sua meia anti-bolhas... sempre existirá alguém que corre mais e melhor que você. E vai machucar, e vai doer, e pode doer muito. E a linha de chegada pode demorar horas a aparecer. Você será ultrapassado por muitas pessoas e vai ultrapassar muitas outras também. Você vai querer desistir. Seu corpo vai pedir para parar. Mas você não vai conseguir obedecer. O sentido de tudo evapora junto com o seu suor. Lição de humildade e limites para quem nunca os teve. E afinal sobre o que ou para quem é a corrida mesmo? No asfalto, você é tão simplesmente o pelotão geral.
Camiseta molhada, medalha pendurada no pescoço, a casa ainda dorme quando você volta com o prazer solitário de ter conseguido correr o percurso e perturbar o trânsito no espaço que lhe coube. Alguns minutos a menos que a sua última corrida, um pouco menos de dor, e a unha do dedão do pé um pouco mais roxa e descolada. Seu filho vê a sua medalha de participação e pergunta em que lugar você chegou. Não sei. Existe lugar nenhum? Sei que corri. Sei que cheguei.

A lógica diz que você não deveria estar lá. Não é lógico estar na rua enquanto todos dormem. Tentar correr dois minutos mais rápido também não é lógico. Lógico é descansar quando se está cansado. Lógico é desistir ou parar se algo dói ou machuca.
Mas eu e o pelotão geral ignoramos a lógica. Porque nós não somos seres lógicos. Somos seres humanos e por definição, somos além da lógica. Parafraseando Guimarães Rosa: correr ultrapassa qualquer entendimento. Qualquer semelhança com a vida não é mera coincidência.

Por:Dra. Patrícia Alessandra Dastoli