No consultório de um neurocirurgião pediátrico, a mesma história se repete: um bebê ou uma criança faz um exame de tomografia ou de ressonância do crânio por conta de algum outro problema, como uma simples queda ou uma dor de cabeça, e descobre um cisto! Os pais vêm então, preocupados com o laudo do exame radiológico: cisto de aracnoide.

Esta situação supracitada caracteriza o que nós médicos chamamos de achado incidental, ou seja, o cisto foi descoberto por um total acaso... Na verdade, os cistos aracnoides são bastante comuns, e com o aumento da disponibilidade e frequência de exames de imagem como tomografias e ressonâncias de crânio, têm sido cada vez mais diagnosticados. Em um grande estudo de coorte onde se avaliaram 48.417 pacientes, 661 (1,4%) tinham um cisto aracnoide. Ou seja, cerca de 1 em cada 100 pessoas da população mundial tem este diagnóstico, que não causa problema algum neurológico, em 95% dos pacientes ao longo da vida.

A etiologia dos cistos aracnoides ainda não está totalmente esclarecida. São formados por um acúmulo de líquido cefalorraquiano (líquido que está presente naturalmente dentro do nosso cérebro), que por uma falha na formação do sistema nervoso do embrião, ficou preso entre uma das membranas que revestem o cérebro. São 3 estas membranas que recobrem o cérebro: 1 – Dura-máter: que é a mais superficial, espessa e aderida ao osso; 2 – Pia-máter: que é a mais interna, fina e aderida ao cérebro; 3 – Aracnoide: que fica localizada entre as duas anteriormente citadas, formando uma rede parecida com uma “teia de aranha”. Como o próprio nome diz, esta é a membrana que está relacionada ao cisto aracnoide.

A localização dos cistos aracnoides varia em diversas partes do cérebro, podendo inclusive (mais raramente) serem encontrados na região da coluna vertebral. No cérebro, são mais comuns na região da fissura silviana ou fossa média (50-60% dos casos), seguido pela fossa posterior (24%) e região supraselar (10%). Vale ressaltar que estes cistos não têm qualquer parte sólida e não são tumores, nem irão se tornar tumores de nenhuma forma, o que costuma ser uma pergunta frequente dos pais que nos procuram.

Grande parte das crianças que têm um cisto de aracnoide não sentem absolutamente nada ou apresentam sintomas leves. Muitos dos sintomas que acabam por ser relacionados a estes cistos são na verdade inespecíficos, como por exemplo a dor de cabeça. A enxaqueca infantil, por exemplo, é bastante comum variando de 2,7 a 10,6% de prevalência em crianças em publicações científicas. Sendo assim, não é infrequente a concomitância de dor de cabeça por enxaqueca e um cisto aracnoide descoberto ao acaso, por isso cabe aos médicos que acompanham a criança procurar fazer estes diagnósticos de forma adequada.

Outros sintomas que podem comumente estar associados aos cistos, são: macrocrania (cabeça grande), tonturas, náuseas e vômitos, fraqueza ou dormência em alguma parte do corpo, dificuldades de equilíbrio e/ou coordenação, crises convulsivas, atraso no desenvolvimento, problemas com a fala e dificuldade de andar. Os cistos que se localizam em uma região específica do cérebro, chamados cistos supraselares, por sua proximidade com a glândula hipofisária e o 3º ventrículo podem causar alguns sintomas específicos como doenças endócrinas, anormalidades visuais, alteração de marcha e até mesmo hidrocefalia. Assim como a dor de cabeça, nenhum destes sintomas supracitados é específico de um cisto aracnoide, ocorrendo também em uma série de outras doenças neurológicas. Portanto, é difícil às vezes que o neurocirurgião pediátrico consiga estabelecer uma relação direta entre estes sintomas e o cisto. Isto é importante pois estudos recentes referem que apenas há melhora após cirurgia de sintomas causados por efeito direto do cisto, sobretudo quando estes sintomas estão relacionados ao aumento da pressão intracraniana. Sintomas inespecíficos e sobretudo sintomas ocasionais raramente melhoram com tratamento cirúrgico. Como pode-se imaginar, em relação ao acompanhamento e ao tratamento destes cistos, há ainda bastante controvérsia entre os especialistas. Como citado, com seu diagnóstico cada vez mais frequente devido aos avanços e disponibilidade de exames de imagem, e tendo alguns cistos tamanho bem grande (chegam a 5 cm, por exemplo) é comum os pais ficarem preocupados, assustados e ansiosos em “apenas acompanhar” o cisto.

Geralmente cistos menores e assintomáticos não são cirúrgicos. Atualmente, recomenda-se que apenas cistos sintomáticos, e/ou com compressão do cérebro inequívoca, devem ser operados. A decisão do tratamento cirúrgico dependerá de alguns fatores: o tamanho do seu cisto, a localização e a relação destes fatores com as queixas e o exame neurológico da criança.

Em optando-se por acompanhar o cisto aracnoide, o especialista deve determinar de acordo com a idade da criança, tamanho e localização do cisto, a frequência que devem ser realizadas as consultas de acompanhamento e os exames de imagem de controle. Ressalta-se que exames com radiação (como a tomografia de crânio) devem ser evitados em crianças, sendo mais aconselhável acompanhamento com exames de ultrassonografia (bebês com “moleira” aberta) ou ressonância magnética de crânio. Se após análise do caso, decidir-se por tratamento cirúrgico, este pode ser escolhido dentre três opções:

1- Cirurgia aberta – na qual se realiza uma abertura e comunicação cirúrgica do cisto através de uma abertura de cerca de 4 cm no crânio.
2- Cirurgia endoscópica – no qual o cisto é perfurado e comunicado com o restante do líquido que circula nos espaços cerebrais, sendo esta abertura feita por um pequeno furo (trepanação) no crânio com auxílio de uma câmera. Vale ressaltar que esta cirurgia não é possível para todas as localizações de cistos.
3- Colocação de uma derivação cisto-peritonial - no qual o excesso de líquido do cisto é drenado para o abdome com auxílio de uma válvula e um cateter que passa por baixo da pele da criança.

Cada uma destas possibilidades tem suas vantagens e desvantagens técnicas, sendo uma ou outra indicada preferencialmente para cada tipo de cisto de acordo com as suas características e a experiência do neurocirurgião. Tendo em vista tantas particularidades e opções de tratamento, é importante consultar com um profissional que esteja habituado a tratar esta doença. A avaliação e acompanhamento cuidadoso da criança por um especialista experiente é a melhor opção para evitar tratamentos desnecessários, minimizar a ansiedade dos pais e indicar com precisão o melhor caminho a seguir para cada caso.

Por Dra Raquel Zorzi
Neurocirurgiã Pediátrica
Revisão: Dr. Ricardo Santos de Oliveira

REFERÊNCIAS:

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